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quinta-feira, 27 de março de 2014

...Digitando

Quem inicia um texto com “eu sou da época...” ou usa a denominação “jovem” já não se considera mais tão jovem assim, mesmo assim, por falta de algo melhor...

Eu sou da época que o treinamento para o mundo empresarial se realizava nas coisas do dia-a-dia. Era necessário um script antes que realizar uma ligação para uma prospect, talvez, os mais artísticos tendessem ao storyboard. A principal preocupação não era, de fato, o que falar para ela, mais sim, o que falar para a mãe dela, caso esta atendesse. (Naquela idade o pronome de tratamento “tia” era aceitável). COMUNICAÇÃO: públicos diferentes requerem comunicações distintas.

Antes mesmo de realizar a ligação era necessário um planejamento do conteúdo e da duração da conversa para o cálculo da quantidade de fichas necessárias. Cada ficha durava 3 minutos e os segundos de silêncio constrangedores poderiam ser denominados luxo. PLANEJAMENTO FINANCEIRO: em pensar que não tínhamos ideia do que era ROI (return on investment). CONCISÃO: Se você estava na terceira ficha e não atingiu o objetivo provavelmente já perdeu o timing. O custo de aquisição já tinha estourado o orçamento.

E para saber onde mora, qual a linha de ônibus que passava perto, qual o Mc Donald’s mais próximo pra ir a pé... GEOLOCALIZAÇÃO: a teoria do raio do amor nunca foi tão presente como nesta época. Qual o perfil, do que gosta, amiga de quem... NETWORKING: diga-me com quem andas e te darei umas dicas.

Ao longo dos anos as motivações das pessoas não mudaram, ainda questiono a denominação sapiens sapiens em nossa espécie. Acho que deveríamos ter parado no homo erectus... pelo menos não soaria contraditório.

As pessoas fazem as mesmas coisas que faziam na época do telefone de ficha, mas com mais tempo, recursos e sem tantos perdigotos desconhecidos. Hoje me sinto um pouco estranho ao falar ao telefone, sei lá, as vezes falta um emoticom no formato de cocô ou um “kkkkk” pra preencher uma réplica marota. (ok, idade não tem a ver com maturidade). O ruim de uma conversa, xaveco ou argumentação ao vivo é que só depois de horas você acha a frase inteligentemente brilhante que deveria ter falado no momento, enquanto se lembra da frase digna de alguém do primário que veio na cabeça na hora.

Aplicativos de chat online são excelentes, eles dão a oportunidade multitarefa de conversar com amigos enquanto se corta a unha do pé. O interessante destes aplicativos é que você sabe que o outro está digitando algo, é como se a ampulheta do Imagem & Ação® parasse até você decidir a mimica ou mesmo jogar jokempô com um delay de vantagem. Ele cria um filtro que no dia-a-dia o maxilar pode deixar a desejar. Afinal, reticencias são três pontos finais...     ...com continuidade.

Um velho ditado diz que temos dois ouvidos e uma boca para utilizarmos nesta proporção. Com o advento dos aplicativos de chat qual o sentido de dizer que temos dois olhos e dez dedos? Bom, no fim das contas, malandro é o Lula que tem nove...   caiu a ficha?