A gastronomia é uma arte engraçada. Os chefs pegam algo que já existe mudam o ângulo que o azeite é jogado ao lado da salsinha e voilá... temos um prato completamente novo (e caro). Pegue por exemplo uma empadinha tire da forma, aumente um pouco o diâmetro e pronto! Surge o quiche.
Essa grande análise combinatória de ingredientes com modo de preparo somado ao marketing e a oportunidade nos dá a ilusão de termos uma infinidade de opções. Até hoje é possível achar nas docerias de atacado casquinhas de sorvete recheadas com chocolate e granulado que vinham em uma caixa de papelão com umas 20 unidades custando não mais que R$ 8,00. Agora, se você entra em uma temakeria e pede um temaki doce de brigadeiro ele vai te preparar a mesma coisa e vai te cobrar o preço de uma caixa da doceria. Ou seja, estão reinventando o modo de vender as coisas que sempre existiram. Acho que vou vender quindim como empadinha doce nas lanchonetes tradicionais da cidade, e acreditem, as pessoas provarão por curiosidade.
Por falar em temakeria, não sei o que se alastra mais rápido, a gripe suína ou tamakerias em São Paulo. A onda do temaki Express veio para ficar e para não perder a oportunidade acho que vou abrir minha própria rede de fast food de temaki, ela se chamará TeMc Donald`s.
Engraçado o que a nova geração de sushimen / women está fazendo. Temos o tão famoso Hot Roll de skin, que acabou com o conceito cru da coisa toda. E a troca do peixe pelas frutas, sim, já vi hosomakis de morango e leite condensado com o arroz envolto em alga ?!? desmembre tudo isso e coloque no prato do bandejão, é como misturar arroz com salada de fruta. Ninguém come isso no kilo, mas se você está num restaurante “japonês” isso é bacana... e a onda do cream cheese, como pode colocar um ingrediente em uma comida japonesa que nem um autêntico nipônico consegue pronunciar?
Dizem que a culinária contemporânea valoriza a mistura de sabores, aromas, forma, textura e visual dos alimentos, algo quase que científico. Ferver o ovo a 61,43°F, salpicar 1,72 punhados de açafrão e por aí vai... é tanto rigor e exatidão que somando entrada, prato principal, acompanhamento e sobremesa você não enche uma mão... Sim, a culinária contemporânea abrange diversos pontos como cor, sabor e cheiro, mas peca no quesito quantidade! Adianta você poder apreciar o melhor grão de arroz do mundo? Tudo bem, não queremos um balde de guano, mas cadê o bom senso? Sei que a obesidade é um dos maiores problemas atuais, mas sabe-se que uma refeição do tamanho de um cisto não preenche um órgão elástico como o estômago.
E os cardápios então, feitos para o maître se divertir quando você faz do cardápio uma tela touchscreen por não saber a pronúncia dos pratos. Você pode até acertar um nome ou outro, mas aí eles mudam e misturam a maior quantidade de idiomas para aumentar a margem de erro.
“Gravad lax de Salmão, Bourguignon de cordeiro com Spatzel, Vol-au-vent recheado com creme de shitake, Ragout de coelho com foie gras e furikake e schabowy como acompanhamento”
E quando chega a tão esperada e rebuscada iguaria o que você encontra é um prato sujo... não, não mande trocar por um prato limpo, eles te cobrarão duas refeições. Quando você acha que acabou de comer a entrada se dá conta que já era a saída. Muitas vezes a própria definição do restaurante já te indica o que virá, eu não confio em nada que venha com letra cursiva no letreiro escrito gourmet, bistrot ou delicatessen soa algo como a supervalorização da ostentação sobre a vontade de comer.
E se aquela fome monstro bater, nada como esfihas de carne, queijo, folheadas de cheddar com pepperoni no Habib`s a preços módicos e com aquele gostinho de cervejada na faculdade. Isso, nenhum bistrô consegue oferecer. Agora eu entendo o lance todo do gênio... Bom apetite!
